Por Natália Tessarollo
Qual foi a última vez que você parou para ouvir, de verdade, uma história dos seus pais?
Fui a um boteco com o meu pai dia desses, acabamos entrando no assunto política e, quando percebi, ele tava me contando uma história muito maneira de uma das vezes que Lula esteve aqui em Colatina. Sim, o nosso presidente já esteve aqui pelo menos umas 8 vezes, segundo as histórias do meu pai.
Mas calma gente, essa não vai ser uma história sobre política. Envolve políticos? Sim. Mas o foco não são eles. É muito mais sobre afeto, tempo de qualidade e escuta. Dito isso, senta que lá vem história.
A história aconteceu na década de 90, depois da primeira derrota do Lula como candidato à presidente. Na época meu pai era presidente do PT aqui de Colatina e no meio do dia ele recebeu uma ligação (naqueles telefones com fio, discados):
-Zé, o Lula tá indo praí, você vê pra gente como faz para pousar no aeroporto de Colatina?
– Pô, eu não sou engenheiro (mentira. ele é. mas achou prudente responder isso). Vê aí com alguém da aeronáutica, eles devem saber como ajudar.
Importante dizer: Colatina não tinha e segue não tendo um aeroporto, era apenas uma estrada pavimentada, que recebia aeronaves de pequeno porte. Sigamos.
Depois do breve diálogo, é claro que ele deu um jeito, acionou prefeito, que falou com algum engenheiro da prefeitura, que veio com a solução: queimar alguns pneus ao lado da pista (acredito que a ideia era ajudar a direcionar o piloto com relação ao vento. Ou pode não ser nada disso. Pro nosso relato não importa muito), além de fazer riscos com gesso nas duas pontas da nossa grandíssima pista de pouso.
Lá vai Zézinho com mais alguns gatos pingados fazer o serviço sujo. Depois de um tempo, temos pneus devidamente queimados, pista riscada e a galera suando mais que tampa de marmita no sol de Colatina (quem conhece sabe o potencial dessa cidade). O relógio mostrava que Lula chegaria em menos de uma hora, não daria tempo de ir em casa e voltar, então o jeito era esperar a chegada do camarada daquele jeitinho, sem banho tomado mesmo.
Tinha uma atmosfera de tensão no ar, pista pequena, aquele monte de gambiarra, será que ia dar certo? De repente, uma aeronave aponta no céu e faz a aterrissagem, tudo certo, tudo lindo. Saíram dois homens, todo mundo se entreolhou, ninguém reconheceu os recém-chegados e começaram uns cochichos, até que um deles aborda meu pai com uma pergunta: você sabe quem tá bancando a vinda do Lula aqui?
Segura esse plot: os caras eram da Folha de São Paulo! Gente, alguém bateu um fio e eles não só ficaram sabendo da vinda de Lula como chegaram antes dele. Eles se juntaram ao grupo que esperava a chegada.
Aqui preciso fazer outro recorte: na época do fato, era comum um político de renome estadual visitar a cidade, sempre de helicóptero e, quando isso acontecia, o então prefeito chamava a comunidade avisando que teria distribuição de pipoca no local. Assim o prefeito garantia uma recepção calorosa ao político.
Voltemos para a nossa história. Quando o primeiro avião pousou, os moradores do bairro escutaram a movimentação e correram até o “aeroporto”: era dia de pipoca, claro! Quando a poeira baixou, literalmente, dava pra ver o pessoal chegando, era um tanto de gente avançando pela pista, à pé, de moto, criança, adulto, cachorro caramelo andando pela pista, pronto para os refrescos. Mas, junto com eles, a segunda aeronave começava a apontar no céu. A tensão voltou a aumentar. Meu pai, um homem extremamente ansioso e desesperado fez o que era esperado: se desesperou!
“Pronto, vai acontecer um desastre, vai morrer um monte de gente” foi o que ele prontamente pensou e começou a gritar pra saírem da pista, pra tentar evitar uma tragédia. Ninguém deu atenção, a mão começou a suar. Mas aquele era o dia de sorte do papai: ele avistou o carro da polícia, explicou rapidamente a situação, os PM’s ligaram a sirene e conseguiram dispersar os moradores antes do segundo avião descer. Deu tudo certo. Desceu mais um, mais outro, um helicóptero, outro helicóptero. A comitiva foi grande. Alguém mandou muito bem na sinalização.
Não sei em qual delas, mas o Lula tava em alguma dessas aeronaves, deu tudo certo. Ele cumprimentou meu pai sem imaginar a trabalheira e a pequena confusão que foi para que aquela, que deveria ser pequena, mas se tornou grande, recepção acontecesse.
E foi assim que fiquei sabendo que, em 1990, meu pai foi um dos responsáveis para que a viagem do Lula até Colatina acontecesse. 37 anos nas costas e ainda não conhecia essa história do meu pai. Provavelmente não conheço outras tantas. No dia seguinte me peguei pensando sobre o privilégio que é poder ouvir ele contar sobre a vida dele, que eu deveria aproveitar mais esse privilégio. Achei que deveria compartilhar essa história com vocês, vai que serve para alguma reflexão. Vai que te motiva a chamar seu pai, sua mãe, seu avós para uma café, uma cerveja e um dedo de prosa. Ou não. Vocês podem fazer o que quiserem depois dela, mas espero que tenham gostado, assim como eu gostei.
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