• Por Sâmela Pedrada

    Escrevo esse texto observando um post-it que minha filha escreveu pra mim com os dizeres: “Minha māe vai ser doutora.” 

    É isso, vou ser mesmo. Estou prestes a alcançar uma conquista a qual nunca imaginei antes. Fico pensando o que a Sâmela adolescente imaginaria se alguém lhe dizesse: um dia você será Doutora em Administraçāo! 

    A verdade é que eu nem sabia o que era isso ou o que significava. Tive acesso a ótimos professores no entāo CEFETES, atual IFES, que por acaso (ou nāo) é o lugar onde trabalho há 10 anos. Mas nāo fazia ideia de que para ter uma carreira de professora era necessário fazer mestrado e doutorado. E muito menos imaginaria que um dia escolheria essa carreira. De fato, essa carreira foi aos pouquinhos me escolhendo. 

    Venho de uma família de comerciantes, nem meu pai nem minha māe possuem curso superior, o que na verdade nāo faz falta na vida deles. Nāo foi algo que eles sonharam e desejaram para eles mesmos. Mesmo assim, sempre fui cobrada e incentivada por eles a ter boas notas e fazer curso superior. Passou um tempinho e  fiz uma pós-graduaçāo. Depois entrei no mestrado e achei simplesmente maravilhoso. E quando percebi estou finalizando um Doutorado. Tudo feito através de políticas públicas educacionais. Desde meu ensino médio, meus pais nunca precisaram gastar 1 real na minha educaçāo. E ainda bem, pois eles nāo teriam de onde tirar.

    Realmente nunca pensei em nada disso quando adolescente. Falava que nunca seria professora e que nāo teria filhos. Um clássico exemplo de que nāo sabemos nada quando somos adolescentes. Queria estudar moda e abrir uma fábrica de roupas, provavelmente pelo meu gosto por moda (o que tenho até hoje) e por enxergar isso como uma possibilidade na cidade de Colatina (o maior polo de moda do nosso estado). Nāo sei como minha vida teria sido se tivesse ido por esse caminho e nunca saberei. Talvez estivesse melhor, quem sabe? Sei que estou tāo feliz, orgulhosa de colher frutos que foram plantados por mim.

    Preparei, cultivei, e tive muita ajuda para conseguir isso. A conquista é individual, mas o trabalho para alcançá-la foi coletivo (como tudo na vida né?). A educaçāo mudou a minha vida. Me fez enxergar possibilidades que antes eram simplesmente desconhecidas. Espero continuar mapeando o desconhecido, mesmo perdendo esse personagem de estudante que gosto tanto. 

    Porque é isso, uma pessoa que escolhe a carreira acadêmica, ela gosta de estudar. Gosta de mudar de opiniāo. De conhecer o diferente. Pensar. Explorar. Concordar. Discordar. E gosta de ouvir críticas sobre seu trabalho. Nāo críticas oriundas de opiniōes vazias, mas críticas embasadas teoricamente por especialistas. É tāo bom. Queria que tivéssemos isso em outras áreas da vida. Saber o que e como podemos melhorar em algo. Ter uma mentora ou um mentor. Tipo uma terapia, mas sobre seu trabalho. Definitivamente vou sentir falta disso. Agora o fluxo acadêmico está se transformando e terei que mentorar alguém. Que responsabilidade!  

    Voltando ao meu eu adolescente, que bom que eu nāo realizei meu sonho de ser dona de fábrica de vestuário. Que bom que aproveitei as chances que a educaçāo pública me permitiu. Minha vida nāo saiu como planejado. E que maravilha!  Imagina? Seria muito monótono se eu tivesse seguido os planos de quando nāo sabia (quase) nada sobre o mundo. E na verdade, se tem uma coisa que a vida acadêmica nos ensina é que nós continuamos nāo sabendo. Aquela famosa frase “Eu só sei que nada sei” de Sócrates faz todo sentido.

    Para quem nāo queria nem ter filhos e muito menos ser professora, olhar para esse post-it com um adesivo de capivara aquece meu coraçāo de um jeito que nunca experienciei antes. Foram os 4 anos mais difíceis da minha vida, abri māo de tantas coisas para me dedicar a essa conquista, entāo me sinto no direito de curtir cada pedacinho dela. 

    E você? O que a sua versāo adulta surpreenderia a sua versāo adolescente?

    A minha vida mudou pela educaçāo, e a sua mudou pelo quê?

  • Por Natália Tessarollo

    Qual foi a última vez que você parou para ouvir, de verdade, uma história dos seus pais? 

    Fui a um boteco com o meu pai dia desses, acabamos entrando no assunto política e, quando percebi, ele tava me contando uma história muito maneira de uma das vezes que Lula esteve aqui em Colatina. Sim, o nosso presidente já esteve aqui pelo menos umas 8 vezes, segundo as histórias do meu pai.

    Mas calma gente, essa não vai ser uma história sobre política. Envolve políticos? Sim. Mas o foco não são eles. É muito mais sobre afeto, tempo de qualidade e escuta. Dito isso, senta que lá vem história.

    A história aconteceu na década de 90, depois da primeira derrota do Lula como candidato à presidente. Na época meu pai era presidente do PT aqui de Colatina e no meio do dia ele recebeu uma ligação (naqueles telefones com fio, discados): 

    -Zé, o Lula tá indo praí, você vê pra gente como faz para pousar no aeroporto de Colatina?

    – Pô, eu não sou engenheiro (mentira. ele é. mas achou prudente responder isso). Vê aí com alguém da aeronáutica, eles devem saber como ajudar. 

    Importante dizer: Colatina não tinha e segue não tendo um aeroporto, era apenas uma estrada pavimentada, que recebia aeronaves de pequeno porte. Sigamos. 

    Depois do breve diálogo, é claro que ele deu um jeito, acionou prefeito, que falou com algum engenheiro da prefeitura, que veio com a solução: queimar alguns pneus ao lado da pista (acredito que a ideia era ajudar a direcionar o piloto com relação ao vento. Ou pode não ser nada disso. Pro nosso relato não importa muito), além de fazer riscos com gesso nas duas pontas da nossa grandíssima pista de pouso.  

    Lá vai Zézinho com mais alguns gatos pingados fazer o serviço sujo. Depois de um tempo, temos pneus devidamente queimados, pista riscada e a galera suando mais que tampa de marmita no sol de Colatina (quem conhece sabe o potencial dessa cidade). O relógio mostrava que Lula chegaria em menos de uma hora, não daria tempo de ir em casa e voltar, então o jeito era esperar a chegada do camarada daquele jeitinho, sem banho tomado mesmo. 

    Tinha uma atmosfera de tensão no ar, pista pequena, aquele monte de gambiarra, será que ia dar certo? De repente, uma aeronave aponta no céu e faz a aterrissagem, tudo certo, tudo lindo. Saíram dois homens, todo mundo se entreolhou, ninguém reconheceu os recém-chegados e começaram uns cochichos, até que um deles aborda meu pai com uma pergunta: você sabe quem tá bancando a vinda do Lula aqui?

    Segura esse plot: os caras eram da Folha de São Paulo! Gente, alguém bateu um fio e eles não só ficaram sabendo da vinda de Lula como chegaram antes dele. Eles se juntaram ao grupo que esperava a chegada.

    Aqui preciso fazer outro recorte: na época do fato, era comum um político de renome estadual visitar a cidade, sempre de helicóptero e, quando isso acontecia, o então prefeito chamava a comunidade avisando que teria distribuição de pipoca no local. Assim o prefeito garantia uma recepção calorosa ao político.

    Voltemos para a nossa história. Quando o primeiro avião pousou, os moradores do bairro escutaram a movimentação e correram até o “aeroporto”: era dia de pipoca, claro! Quando a poeira baixou, literalmente, dava pra ver o pessoal chegando, era um tanto de gente avançando pela pista, à pé, de moto, criança, adulto, cachorro caramelo andando pela pista, pronto para os refrescos. Mas, junto com eles, a segunda aeronave começava a apontar no céu. A tensão voltou a aumentar. Meu pai, um homem extremamente ansioso e desesperado fez o que era esperado: se desesperou!

    “Pronto, vai acontecer um desastre, vai morrer um monte de gente” foi o que ele prontamente pensou e começou a gritar pra saírem da pista, pra tentar evitar uma tragédia. Ninguém deu atenção, a mão começou a suar. Mas aquele era o dia de sorte do papai: ele avistou o carro da polícia, explicou rapidamente a situação, os PM’s ligaram a sirene e conseguiram dispersar os moradores antes do segundo avião descer. Deu tudo certo. Desceu mais um, mais outro, um helicóptero, outro helicóptero. A comitiva foi grande. Alguém mandou muito bem na sinalização.

    Não sei em qual delas, mas o Lula tava em alguma dessas aeronaves, deu tudo certo. Ele cumprimentou meu pai sem imaginar a trabalheira e a pequena confusão que foi para que aquela, que deveria ser pequena, mas se tornou grande, recepção acontecesse.

    E foi assim que fiquei sabendo que, em 1990, meu pai foi um dos responsáveis para que a viagem do Lula até Colatina acontecesse. 37 anos nas costas e ainda não conhecia essa história do meu pai. Provavelmente não conheço outras tantas. No dia seguinte me peguei pensando sobre o privilégio que é poder ouvir ele contar sobre a vida dele, que eu deveria aproveitar mais esse privilégio. Achei que deveria compartilhar essa história com vocês, vai que serve para alguma reflexão. Vai que te motiva a chamar seu pai, sua mãe, seu avós para uma café, uma cerveja e um dedo de prosa. Ou não. Vocês podem fazer o que quiserem depois dela, mas espero que tenham gostado, assim como eu gostei.